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Você já ouviu falar em conforto ambiental? E eficiência energética? Estas são diretrizes arquitetônicas que estão – ou, se não, deveriam estar – no topo da agenda dos arquitetos conterrâneos. Nem tão novas assim, pois chegaram ao Brasil nos idos de 1960 e encontram-se a pleno vapor de implantação na Europa, mas agora mais imprescindíveis do que nunca à revitalização de nossas cidades, elas dizem respeito à capacidade de projetar levando em conta especificidades que vão desde as condições climáticas, iluminação natural e características de acústica (o tal conforto ambiental), passando pelo consumo energético, até a questão dos resíduos de materiais empregados nas construções. O objetivo desta adequação, lançando mão de aspectos sustentáveis nas edificações, é reduzir o impacto das construções no ambiente.
Voltado a esta questão primordial, nosso colaborador, o arquiteto Felipe Góes, foi consultar a arquiteta Roberta Kronka, pesquisadora e profissional atuante na área de conforto ambiental, sustentabilidade e impacto ambiental, docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a fim de esclarecer o tema e apurar algumas medidas possíveis. Nesta entrevista, ela salienta ainda que a sustentabilidade não deve ser encarada como um fim, mas como um processo gradativo, que pode ser continuamente aprimorado. Aperfeiçoá-lo é o grande desafio de nossos arquitetos contemporâneos. Confira.
(Com Carolina Malta)
Com o aumento da população urbana no Brasil, qual é a importância do conforto ambiental e da eficiência energética nos edifícios?
Eu diria que essa importância sempre existiu. A arquitetura brasileira ficou mundialmente conhecida na década de 1960 principalmente pela excelência dos prédios no que diz respeito às questões de conforto ambiental e consequentemente à eficiência energética. A "arquitetura bioclimática", como ficou conhecida, produziu modelos de edifícios que até hoje são exemplo de eficiência e desempenho, superiores a muitos edifícios contemporâneos. Porém, o que ocorreu nas décadas seguintes, com o crescimento econômico e a aparente abundância de recursos naturais, principalmente a energia, foi que essas questões foram deixadas em segundo plano. E o que estamos assistindo no momento, frente ao esgotamento dos recursos naturais e ao impacto que a arquitetura acaba gerando nas cidades, é uma retomada desses valores. A bandeira da eficiência energética e a importância do conforto ambiental refletem diretamente nas reduções de custo na fase de operação da edificação, e talvez esta seja a grande razão para a retomada desses conceitos.
Costumo dizer que o impacto que as edificações e as cidades geram no meio ambiente é inevitável. O que é necessário, no contexto atual de esgotamento dos recursos naturais e até colapso das grandes cidades, é fazer com que os edifícios gerem o mínimo de impacto possível. Também é importante observar que de nada adiantam edifícios eficientes se o meio urbano não o é. A atenção no desenho urbano de menor impacto ambiental bem como medidas que auxiliem nessas reduções são imprescindíveis.
Ao estendermos esta análise à vizinhança, à cidade e ao planejamento urbano e regional, quais as formas de se avaliar e propor estratégias sustentáveis em novos assentamentos humanos e no redesenho e qualificação de áreas consolidadas?
Eu diria que esta questão é complexa e ainda não se sabe ao certo qual é a solução. Algumas questões para respondê-la são básicas e, infelizmente, cruciais para atingir cidades ou áreas com o mínimo de impacto no meio ambiente:
- Existe um limite de tamanho para os aglomerados urbanos (as cidades)? - A densidade é um fator determinante na qualidade (ou falta de) nas cidades? - Quais seriam os fatores ambientais imprescindíveis para a diminuição dos impactos desses aglomerados e consequentemente o aumento da sua sustentabilidade?
Para começar a discussão eu diria que, entre outros, existem alguns fatores determinantes, que devem ser melhor trabalhados para busca dessa sustentabilidade, como possibilidade de geração de energia no meio urbano (nas edificações e em áreas urbanas favoráveis), acesso ao sol, economia de água. Além disso, mesmo com as incertezas e os longos caminhos a serem percorridos, é importante frisar que não existe um edifício sustentável em um meio que não o é. É extremamente importante ter consciência de que ainda temos muito a pesquisar e a propor para as nossas cidades.
Considerando que a indústria da construção é uma das maiores consumidoras de matéria-prima do país e, da mesma forma, uma das maiores geradoras de resíduos provenientes das demolições ou mesmo de descartes e desperdícios de obra, como podemos avaliar a atualização e surgimento de novas Leis, Normas e Selos referentes aos processos e produtos utilizados na produção do ambiente construído?
Primeiramente, eu diria que com a nova Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) o setor da construção civil sofrerá profundas transformações. Apesar de algumas mudanças já estarem acontecendo nos últimos anos, a PNRS vai forçar mudanças efetivas mais profundas e eficazes, não só no processo construtivo, mas principalmente na forma de se tratar esses resíduos. A grande mudança de paradigma encontra-se justamente aí: o problema não acaba quando eu descarto determinado resíduo, mas se inicia. O aumento da responsabilidade diante da geração desses resíduos fará com que aspectos relacionados ao reaproveitamento, reutilização e reciclagem tomem muito mais força neste setor.
Atualmente, principalmente na Europa, é comum a reutilização de edifícios inteiros, seja com a mudança de uso, seja em sua desmontagem e reaproveitamento de quase todos os componentes em uma nova edificação. No Brasil, infelizmente, estamos apenas despertando para essas questões. Ainda temos um corpo normativo (Normas) que não responde às mínimas questões de desempenho de uma edificação e em contrapartida somos bombardeados por selos e certificações que na maioria das vezes baseiam-se em leis e/ou normas de outros países e muitas vezes não são mensuráveis por uma avaliação criteriosa. É muito importante entender este contexto e trabalhar para a criação de formas efetivas de controle e de certificações voltadas para a nossa realidade, pois somente dessa forma poderemos contribuir significativamente para a diminuição dos impactos gerados pelos materiais construtivos e pelo consumo da matéria-prima em questão.
Não posso deixar de observar que o material construtivo é apenas umas das variáveis que devem ser trabalhadas em busca de maior sustentabilidade de uma edificação. Aspectos como conforto ambiental (iluminação natural, térmica, acústica etc.) e consequentemente eficiência energética, impacto no terreno e na vizinhança, custo (construção e uso da edificação) fazem parte desse conjunto e juntos poderão proporcionar uma edificação e uma cidade mais sustentáveis. Além disso, não podemos deixar de observar que a sustentabilidade não é um fim, mas sim um processo gradativo, que pode ser continuamente melhorado.
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