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Arte, modos de usar Imprimir E-mail
Escrito por Alessandra Ferreira   
Sex, 02 de Julho de 2010 08:06
Um fenômeno complexo nascia em meio ao modernismo nos países europeus e americanos, onde se atingiu certo nível de desenvolvimento industrial. Entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, um “estilo” novo começa a reger a arte, a cultura e todas as esferas que figuram os costumes como a arquitetura, o urbanismo, a joalheria, o mobiliário, o design industrial de produto, o design gráfico publicitário e o vestuário.

Estamos falando do Art Nouveau, que teve início em Paris e recebeu diferentes nomes de acordo com seu país de origem: Modern Style nos EUA; Jugendstil na Europa Central; Liberty na Itália. Com características distintas, apesar da quase uniformidade com que o estilo se espalha, esse “gosto novo” procurou satisfazer uma espécie de busca pelo belo, ou, como disse Giulio Argan, “o que se acredita ser a necessidade de arte da comunidade inteira”, enfadada pela padronização praticada pela indústria.

A produção industrial em série muda a forma de consumo da sociedade burguesa e cria um novo conceito, já que o tempo de produção de um artefato reduziu, é necessário acelerar seu tempo de consumo bem como sua substituição por um novo produto. Nesse momento, surge o conceito de ”moda” como um fator psicológico que desperta nas pessoas o interesse pelo novo produto e o desinteresse pelo anterior.

O Art Nouveau é um estilo eclético e tipicamente urbano, uma arte de elite, mas acessível também ao povo por meio de subprodutos industriais, garantindo a integração do estilo aos costumes. Foi difundida pelas revistas de arte e moda, pela publicidade e comércio, pelas exposições e espetáculos. Incorporou elementos de correntes estéticas, como por exemplo, o Cubismo. Mas diferentemente de outros movimentos artístico, não toma qualquer partido ideológico, seu compromisso é com a originalidade da forma, o estilismo dos objetos comumente funcionais.

Nesse sentido, podemos dizer que o Art Nouveau foi o precursor do design, e, por meio da litografia colorida, também da publicidade. Esse avanço tecnológico alavancou a produção gráfica permitindo a confecção de modernos pôsteres artísticos, muito usados na divulgação de espetáculos ou marcas comerciais, que estilizam até a caligrafia, integrando-a a arte. Ainda hoje, arquitetos, engenheiros, desenhistas e artistas fazem uso de ferramentas ou réguas de diferentes curvaturas também conhecidas como “curvas francesas”, que representam o decorativismo hedonista do estilo Nouveau.

Nomes como o do desenhista e ilustrador inglês Aubrey Beardsley e do escritor irlandês Oscar Wilde foram importantes propagadores do hedonismo em voga. A obra de Beardsley traduz a atmosfera do fim do século com elegância e morbidez, além de explorar a sexualidade de forma obscena. Entre outros trabalhos, ilustrou a versão de Salomé, escrita por Wilde. Outro importante artista do período foi o desenhista e pintor tcheco Alphonse Mucha, mais conhecido por suas lustrações. E não podemos deixar de citar o pintor, escritor e um dos fundadores do movimento socialista na Inglaterra William Morris, que inicia, em paralelo, o movimento Arts and Crafts, voltado para a reabilitação do artista-artesão.

O estilo Nouveau dispensa a proporção e o equilíbrio simétrico, o movimento da linha assume o primeiro plano em ritmos sustentados pelas curvas assimétricas e sinuosas. São, basicamente, formas circulares que valorizam a beleza e a sensualidade, retratando com leveza, homem e natureza, em tonalidades frias e geralmente em movimento. Elementos de transparência, motivos florais e arabescos são incorporados às composições, que recebem influências da gravura japonesa, do barroco alemão e do rococó francês.

Na arquitetura, novos materiais como o ferro e o vidro, principais elementos dos edifícios, são usados pelos mais talentosos arquitetos da época, como o francês Hector Guimard, projetista das entradas do Metropolitano de Paris e do edifício de apartamentos Castel Béranger em Paris; o belga Victor Horta (que inspirou artistas como o próprio Guimard) que cria em Bruxelas a casa Solvay e sua própria residência, que mais tarde é transformada em museu; e o espanhol Antoni Gaudí, que projetou em Barcelona (o já iniciado e não concluído) Templo da Sagrada Família e o Parque Güell.

Na pintura, artistas como os franceses Toulouse-Lautrec, Pierre Bonnard e o russo Vassili Kandinsky corroboraram com o estilo, bem como o pintor austríaco Gustav Klimt que fundou o grupo Sezession, na Áustria. Nas artes decorativas são usados elementos de textura e cor nos revestimentos. Já a arte em vidro é valorizada por nomes como o de Louis Comfort Tiffany, que após estudos em Paris, realiza a decoração dos salões da Casa Branca, em Washington, dedica-se à produção de vasos de grande leveza e à joalheria, até fundar a empresa Tiffany’s em Nova York.

Já o artista Émile Gallé criou uma escola artesanal que produzia vasos e móveis para muitos países do Ocidente, formando grandes artistas ao estilo Nouveau, entre eles o mestre vidreiro e joalheiro francês René Lalique, que criou joias memoráveis ao estilo de Gallé. Além do também francês Eugène Rousseau, importante ceramista e vidraceiro, que explorou em detalhes os mais belos motivos florais.

No Brasil, o Art Nouveau chega no período da exploração da borracha. Em Belém do Pará e Manaus, está na arquitetura e nas pinturas decorativas permeadas pela temática do homem e da natureza amazônicos, além do grafismo da arte marajoara principalmente em peças de cerâmica, considerada a mais antiga arte cerâmica das Américas. Podemos vê-las nas peças decorativas do artista, historiador e educador brasileiro Theodoro Braga ao lado do português Correia Dias (A casa de Braga, em São Paulo, é um bom exemplo das confluências entre o Art Nouveau e os motivos marajoaras).

Na pintura e na escultura, destacaram-se nomes de excelentes artistas como o pintor Carlo de Servi e o escultor Victor Brecheret, autor do Monumento às Bandeiras, da escultura da Poetisa Francisca Julia da Silva (exposta na Pinacoteca de São Paulo), da escultura presente no túmulo de Olivia Guedes Penteado (no cemitério da Consolação), entre outros trabalhos. Destaque também para o artista suíço John Graz que traz influências da arte de vanguarda para artistas brasileiros modernistas como Anita Malfatti, Antonio Gomide e o lituano naturalizado brasileiro Lasar Segall.

Em São Paulo, o Viaduto da Santa Ifigênia, o edifício-sede da Biblioteca Mário de Andrade, o Estádio do Pacaembu e o Edifício Itália são algumas obras da arquitetura de características Nouveau. A Vila Penteado, projetada por Carlos Ekman, atualmente sede da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é considerada uma das obras mais representativas do estilo, bem como as construções do arquiteto Victor Dubugras.

No Rio de Janeiro, a decoração da Confeitaria Colombo e as grades em ferro forjado dos salões do Teatro Municipal são emblemáticos exemplares da influência Nouveau, que no Brasil, de forma geral, é mais frequente na arquitetura e nas artes decorativas. Nas artes gráficas temos alguns trabalhos do pintor Di Cavalcanti (um dos organizadores da semana de arte moderna de 1922) como o Projeto para Cartaz (Carnaval), e as aquarelas Um Suicídio e Garota na Onda do designer e caricaturista J. Carlos. Além dos publicados em algumas revistas paulistanas e cariocas como O Tagarela, A Avenida, O Malho e Fon-Fon!

Como o fenômeno “econômico sócio-cultural” que foi na época, o Art Nouveau corresponde hoje ao que chamamos de fetichismo da mercadoria. Suas características plásticas são inconfundíveis e servem até os dias atuais como fonte de inspiração, passando por constantes reinterpretações na arte, arquitetura, moda, design e joalheria.

O Art Nouveau está por toda parte, você reconheceria?

 

PARA SABER MAIS


Livros:
- Quando o Brasil era moderno: guia de arquitetura, Lauro Cavalcanti. Ed Aeroplano. 1ª edição, 2001.
- Arte moderna. Giulio Carlo Argan. Ed Companhia das Letras. 5ª edição, 1992.
- 100 drawings Gustav Klimt. Alfred Werner. Dover Publications.
- O Retrato de Dorian Gray. Oscar Wilde. 1ª edição, bilíngue português/inglês, 2009, Ed Landmark.  

Links Interessantes:
- www.jotacarlos.org Site do cartunista J. Carlos com acervo dos nove anos das revistas O Malho e Para Todos!
- www.mucha.cz Museu do artista Alphonse Mucha em Praga.
- www.mucha-museum.co.jp Museu de Mucha em Tokyo.
- www.usp.br/cpc/v1/php/wf03_conservacao.php?apres=nao&id_cat=4 Belíssimas fotografias da Vila Penteado, incluindo detalhes do interior da propriedade.
- www.casadaboia.com.br/novo/sitemuseu/museu.html Museu da Casa da Bóia em São Paulo.
- www.sofiamauro.com/?c=fashion/ Site dos fotógrafos Sofia Sanchez e Mauro Mongiello. Repare nas quatro primeiras fotografias de moda inspiradas no estilo Nouveau!
- www.rlalique.com Tudo sobre René Lalique!

- http://danielklajmic.com/pt-BR/show/116 Belíssimas fotografias da atriz Sonia Braga tiradas pelo fotógrafo brasileiro Daniel Klajmic.
- www.beardsley.artpassions.net Bem cuidada reunião das obras de Aubrey Beardsley, além de informações.

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