Adicionar Site aos Favoritos
Associe-se e ganhe descontos exclusivos

Nossos parceiros oferecem vantagens especiais para nossos associados.

 
Home Atualidades A Virginia de Marder
A Virginia de Marder Imprimir E-mail
Escrito por Juliana Bratfisch   
Sex, 13 de Janeiro de 2012 15:22

Embora atualmente haja um grande apelo midiático e mesmo editorial por relatar a vida de jovens celebridades como Justin Bieber ou de grandes empresários inventivos como Steve Jobs, não é de hoje que o gênero biográfico agrada aos mais diversos leitores e escritores. Com Virginia Woolf não foi diferente: sua vida, mais que explorada por biógrafos, foi também submetida à criação de personagens literárias, teatrais e cinematográficas, tais como aquela criada pelo dramaturgo Edward Albee em Quem tem medo de Virginia Woolf? e, mais recentemente, por Michael Cunningham em As horas – romance popularizado pelo filme em que Nicole Kidman foi vencedora do Oscar.

 

É plenamente legítimo questionarmos se há motivo para darmos atenção neste momento a mais uma biografia de Virginia Woolf, mas basta se enveredar nas cinquenta páginas da edição de Virginia Woolf: A medida da vida, de Herbert Marder, recém publicada pela Cosac Naify, para que isso não pareça mais uma questão palpável. Digo isto, pois o modo como o biógrafo nos conduz pelos últimos anos da escritora, romanceando sua vida através de textos narrativos, cartas e diários, corresponde em parte ao que ela soube fazer dentro do gênero biográfico.

 

Para esclarecer esta última afirmação é preciso observar o outro lado desse jogo entre retratado e fotógrafo. Muito antes de ser personagem, a escritora, além de Orlando, considerado uma espécie de biografia de sua geração, publicou um livro sobre o crítico de arte, Roger Fry. Se no início hesitou em dar cabo ao projeto por considerá-lo pertencente a um gênero que não condizia com sua imaginação poética, acabou por desenvolvê-lo, pois Fry lhe daria a oportunidade de ter uma visão de sua própria trajetória intelectual. É exatamente o que acontece com Herbert Marder; professor emérito de inglês da Universidade de Illinois, possui, desde sua formação, um constante interesse não apenas por Virginia, mas pelo grupo de Bloomsbury, tendo publicado outras teses e livros sobre o tema. Falar sobre Virginia Woolf, sob uma perspectiva menos acadêmica, seria também visitar sua própria trajetória intelectual e ter um desafio de forma.


O resultado desse trabalho é a construção de um sofisticado ensaio romanesco no qual, apesar de já conhecemos desde o início o destino de nossa personagem, desenvolvemos interesse pelos detalhes e idiossincrasias presentes nesse percurso. Mesmo se tratando de um relato de vida, a biografia não deixa de ser intercalada por momentos de fina análise dos romances e ensaios de Virginia. Toda vez que entra num período em que a escritora passa por momentos de intensa criação, por exemplo, nos presenteia com o resumo da história ou da argumentação e com uma minuciosa análise, não se furtando a expor-se enquanto crítico para apenas relatar uma vida.

 

Dentre os aspectos presentes no livro está a exposição do conflito existente entre os resquícios da figura de lady vitoriana em Virginia e sua crescente concentração em realidades sociais. É relativamente fácil associar à escritora a imagem de lady da alta sociedade, uma Mrs. Dalloway que não deseja que nada atrapalhe sua rotina agradável, até mesmo porque, como Clarissa, sua personagem, Virginia também era igualmente insensível ao lidar com empregadas, com pessoas menos favorecidas financeiramente e até mesmo com Leonard, seu marido, que por vezes, era chamado por ela de pequeno judeu ou judeuzinho sujo. Entretanto, mesmo que Virginia assumisse essa postura, como muitos dos membros de sua classe social, também a criticava em seus romances e ensaios. Como o biógrafo indica, "seus reflexos de classe alta e a política socialista coexistiam sem fricção notável"¹. Se por um lado nela houve resquícios dos costumes e preconceitos vitorianos, por outro, principalmente ante a crescente ameaça de guerra, fixaram-se novas respostas aos acontecimentos, quebrando os moldes vigentes e encontrando maior sintonia com a consciência social do momento. É extremamente interessante perceber o fascínio de Marder diante das graduais mudanças de Virginia Woolf sob grande tensão .

 

Outro aspecto interessante da biografia de Marder reside no enfoque dado à conflituosa relação estabelecida pela escritora entre o ato de escrever e a iminência de guerra. Como muitos intelectuais de sua época, Virginia se questionava sobre a necessidade de inserir em sua escrita certo engajamento político diante dos fatos. Durante a escrita de Os Anos pensou em ali ceder um espaço privilegiado para uma ensaística mais diretamente relacionada ao fascismo, ideia dissipada adiante pelo medo de cair em certo didatismo ou superficialidade. Após ter tomado a resolução de trabalhar esse tema em outra narrativa paralela, decidiu-se por um ensaio, Three Guineas, não misturando, ao menos de forma explícita, narrativa e política.

 

Para finalizar, gostaria de lembrar que, terminada a biografia de Fry, Leonard criticou-a duramente – até mesmo injustamente:

 

Leonard tinha lido o livro até a metade e julgou-o imperfeito [...] O método dela de expor os temas em palavras do próprio Roger, sem fornecer ao leitor claras chaves de interpretação, só poderia funcionar se o biografado fosse um "vidente" com uma mensagem que valesse em si mesma, o que Roger não era. O leitor precisava de orientação, e ela havia estorvado sua própria imaginação por usar um estilo de "austera repressão", o que tornava o livro "monótono para quem via de fora. Todas citações sem vida".²

 

Mas, ao contrário do julgamento de Leonard, pessoas que tiveram um convívio mais estreito com o crítico de arte, como Vanessa, irmã de Virginia e ex-amante de Fry, foram leitores entusiastas, pois ali viam um retrato extremamente convincente. A escolha de Marder pela interpretação da obra da escritora, relacionando fatos de sua vida, protegidos, contudo, pela neutralidade da pura ordenação, não causa menos efeitos romanescos do que o Fry de Virginia. Pode-se dizer que há a conquista do mesmo tipo especial de impessoalidade desejada pela escritora biografada, um estar serenamente presente-ausente, pois há ali uma Virginia de Marder.

 

 

¹MARDER, H. Virginia Woolf: A Medida da Vida. São Paulo, Cosac Naify, 2011, p.26.


²Idem, p. 433.

 

Mais...
 

Comentar


Código de segurança
Atualizar