
As histórias de amor habitam as telas há décadas, e nós, espectadores, ficamos sempre atentos torcendo pelo final feliz. No caso de Amor em 5 tempos, de François Ozon, o final só é feliz porque é o começo. Explico: o diretor francês optou por contar a história de Marion (Valeria Bruni-Tedeschi) e Gilles (Stéphane Freiss) a partir do divórcio do casal. Uma hora e meia depois, no final do filme, vamos descobrir como tudo começou.
Como o próprio nome diz, cinco episódios importantes na vida comum do casal pontuam a narrativa para reconstruir a história dos dois. Os personagens principais são descolados de seus passados e existem apenas em relação ao parceiro, e é nessa relação com o parceiro que eles são apresentados, a partir de suas ações, reações e iniciativas. O foco fica em Marion e Gilles, personagens secundários aparecem sempre como um peso que coloca a relação em cheque, opinando e fazendo os dois se questionarem a respeito da própria condição.
Interessante é perceber como é impossível tomar partido por algum dos personagens. Ainda bem, e obviamente, nesse romance o interesse não é definir ou categorizar as atitudes deles, mostrando cada tempo como uma batalha, mas exemplificar a dificuldade de resolver problemas cuja origem também parece ser desconhecida.
Essa é a segunda vez que escolho um filme de Ozon para apresentar aqui, o primeiro foi Potiche – esposa troféu, em julho. E mais uma vez destaco a habilidade do diretor para criticar as instituições, para explorar as relações familiares, o ninho, o nicho, já que o ambiente, nos dois filmes, é praticamente a casa – ou a família. No entanto, se em Potiche (2010) Ozon apresentou seus personagens cheios de cores, suavizando a pungência crítica, em Amor em 5 tempos as cores são suprimidas para criar uma ambientação misteriosa e, por que não, até um pouco sombria. Essa meia-luz vai se expandindo ao longo da obra, e oscila, abrindo-se apenas no final, quando os amantes se conhecem numa praia na Itália: sol, mar, claridade.
Pode-se também comparar as expressões do início-fim do filme com as maneiras e expressões que Marion e Gilles vão adquirindo rumo ao fim-início. As primeiras mais carregadas, soturnas, azuis, e as outras mais leves, de cores quentes. Assim, Ozon explicita sua crítica à instituição casamento, deixando a impressão de que pouco se sabe da pessoa com quem se vive, e de que a surpresa diante de reações e novas informações sobre o outro está sempre presente.
Régis Trigo, do Cineplayers, comenta que nós, espectadores, mesmo sabendo que a história de Marion e Gilles vai acabar de forma dramática e triste, tendemos a torcer pelo casal, desejamos ver os dois felizes – já que isso não acontece em quase nenhuma cena. Acrescento que, depois de torcermos pelo final feliz da história, podemos nos dar por satisfeitos: o final feliz é o começo. Uma satisfação relativa, pois a ideia de fracasso não nos abandona e, mesmo quando vemos os dois em pleno flerte na beira do mar, já nos alertamos: isso vai acabar mal. Mesmo assim os dois resolvem, juntos, nadar no mar que, como diziam por ali, estava perigoso.
O filme é permeado por uma trilha molto bella, com músicas entrecortando os cinco "episódios". As canções compactuam com as situações revelando seu lado mais dramático e até absurdo. Foi uma opção interessante e curiosa a escolha das love songs italianas da década de 1960, que, ao mesmo tempo que zombam do drama da história e de seus personagens, deixam a sensação nostálgica de que em um tempo, ilusório, tudo corria bem.
François Ozon é considerado um dos jovens diretores mais importantes da França. Estreando em longas-metragens com o elogiado Sitcom (1998) e premiado por 8 Mulheres (2002), talvez seu filme mais famoso, Ozon parece tentar explorar todas as realidades possíveis dentro do ambiente familiar. Todas as possíveis reviravoltas. Em Amor em 5 tempos não é diferente, e, nesse filme, tudo acontece antes mesmo de acontecer.
Amor em 5 tempos (5x2). 2004. 90'. Drama. Dir.: François Ozon.
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