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Home Literatura Quixote e Macunaíma nas tessituras do descobrimento do "eu"
Quixote e Macunaíma nas tessituras do descobrimento do "eu" Imprimir E-mail
Escrito por Priscila Rocha Oliete   
Seg, 05 de Dezembro de 2011 14:44

Muito já se falou sobre as diferenças e incongruências entre D. Quixote de La Mancha e Macunaíma. Quero falar sobre as semelhanças. Infelizmente, para isso, não posso basear-me em Bakhtin e sua teoria da carnavalização. Digo infelizmente simplesmente pelo fato de não poder corroborar esses devaneios meus sob a ótica de teóricos e doutores consagrados. Felizmente, posso destacar duas essenciais constatações:

 

- Isento-me, aqui, de papagaiar o que outros já disseram vetando veementemente o que realmente penso frente a uma banca avaliadora sem consciência mínima da própria existência fora da bolha acadêmica, salvo raríssimas exceções;

 

- Sou brasileira, produto da mescla de branco com negro, do americano com o europeu; que nasceu de cara feia pelo simples fato de existir, mas vive da melhor maneira possível, tentando manter o caráter que tanto falta ao Macunaíma e tendo passado, recentemente, por alguns dos lugares onde D. Quixote passou.

 

O herói sem nenhum caráter e o cavaleiro das ilusões.

 

Considere-se que, nos respectivos períodos em que as obras foram concebidas, as mudanças históricas que estavam ocorrendo seriam de crucial importância não só para a história local de cada país ou região, mas no mundo de forma geral.


Com o fim da Idade Média aproximadamente dois séculos antes de D. Quixote, os cavaleiros a muito haviam deixado de ser realidade para começarem a se transformar em lendas enquanto a navegação e o "descobrimento" de novas terras corria a toda.


Já no Brasil de Macunaíma e da década de 20, a industrialização desenfreada e a maciça invasão de imigrantes incitaram a necessidade urgente urgentíssima na nossa elite cultural de criar uma identidade nacional. Processos de ebulição em que todos estavam a ponto de enlouquecer.

 

No limite entre a razão e a insanidade. Eis que, em ambos momentos, a compreensão da necessidade de transferir essa vazão da razão para um personagem literário se fez.

 

Após um mês em terras de Espanha, lamento, mas o assunto não poderia mesmo ser outro. Inclusive por ter passado pela mesma faixa meridional das andanças quixotescas. Por cada torre e cada moinho que passei, ele estava lá. Soberbo em seu Rocinante, sempre acompanhado de seu fiel escudeiro.


E, curiosamente, foi inevitável não pensar em Macunaíma, em suas andanças pela terra tupiniquim e seus conflitos de identidade que ilustraram tão bem a busca de uma identidade nacional - como eu e tantos outros brasileiros ainda buscam. Conflitos de identidade presentes também no cavaleiro Quixote, já que de cavaleiro ele só tinha a alcunha por ele próprio designada.

 

Você ainda não leu D. Quixote? Não se aflija! Ele está aí. Para sempre. Não há Farehnheit 451 que possa destruí-lo ou a Macunaíma, pois ambos já fazem parte da existência humana.

 

Talvez Macunaíma não possua a mesma consideração que o cavaleiro das ilusões diante da "elite" da crítica literária mundial, mas nós, brasileiros, temos consciência da importância que essa obra carrega. Não apenas como criação literária, mas política e social, uma vez que retrata praticamente todas as questões existenciais de uma época de descobrimento do "eu" nacional.

 

Apesar de muito menos denso do que Dom Quixote, Macunaíma poderia ser lido em uma "sentada", mas não o faça. Ambos devem ser lidos aos poucos, em doses homeopáticas, como alguns diriam. Talvez você leve uma vida toda para ler Dom Quixote e perceber todas as referências presentes em Macunaíma. Acredite, a profundidade dessas obras estão muito além de seus berços pátrios, respectivamente, a porta de entrada das invasões árabes e a terra das verdes matas em extinção. São a prova de que a busca pelo "eu" seria uma necessidade intrínseca do ser humano, independente de qualquer coisa. Provas são essas obras, distantes não só cronologicamente, mas também geograficamente.

 

Talvez conseguirá ler Macunaíma rápido, experimente lê-lo novamente após 1 ou 2 anos. Quanto a D. Quixote, talvez você precise dar uma pausa por tempo indeterminado. Não tem problema. Volte a ele quando achar melhor. Ou você aprendeu a se conhecer do dia para a noite, de uma vez só? Eu, depois de tantos anos, ainda me surpreendo com o que sou capaz de aceitar e fazer! Tudo na vida tem seu momento. Até ler uma 'obra patrimônio'.

 

Sabe aquelas vontades que você reprimiu? Aqueles desejos que você obliterou? Sabe aqueles sonhos que você esqueceu? Ou aqueles momentos que nunca vivenciou? Dom Quixote encarou e Macunaíma foi tudo isso! Puderam fazê-lo porque eram livres, personagens, acima de questões sociais, políticas, tabus e preconceitos.

 

Eles são Cervantes-id, Mario-id, o povo-id, o espírito universal, eu, você, todos nós, que nos comportamos de acordo com o que esperam da gente e não como gostaríamos essencialmente de ser.

 

Felizes os personagens que podem essencialmente ser! Livres! Felizes nossas mentes que podem nos imaginar sendo personagens ou simplesmente acompanhando essas jornadas de viver na procura do seu lugar no mundo, mesmo que depois leve à descoberta de que não há, nem nunca houve heróis, pois até eles tem suas fraquezas.

 

 

Dicas de Leitura

 

Andrade, Mário de. Macunaíma o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1965.

 

Bakhtin, M. M./Volochinov, V. N. (1929) Marxismo e Filosofia da Linguagem. SP: Hucitec, 2ª edição, 1981.


Ray Bradbury, Fahrenheit 451. Nova Iorque: Ballantine Books, 1953.

 

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición del IV Centenario. Real Academía Española, São Paulo, SP, Brasil, 2004.

 

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Comentários  

 
+1 #2 ThiagoGodinho 10.03.2012 20:20
Admiro seu trabalho e sinto muito orgulho pelo seu desempenho.
Ótimo texto! Depois que li seu texto, me deu mais vontade de ler Macunaíma.
Continue assim.
Parabéns
Citação
 
 
+1 #1 Felipe Godinho 07.03.2012 23:20
Admito que não entendi quase nada dos dois primeiros parágrafos.
Mas com relação ao restante (que eu entendi hehe) está de parabéns.
Citação
 

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