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Os pés estão descalços, a roupa já não é roupa, é rasgo, é sujeira, é qualquer coisa, mas não é roupa. Ele se aproxima, finjo fechar o vidro por causa da garoa, sinto pena, já não sei ao certo de quem.
Lá se vai a primeira bola para o alto, o show de malabarismo decorre com tempo marcado, trinta e cinco segundos da mais assoladora miséria infantil urbana. Uma das bolas cai.
Trinta e cinco segundos. E a luz permanece vermelha, enquanto no corpo sinto negro incômodo. Não quero mais vê-lo, tirem-no daqui, sumam-no, façam alguma coisa.
Quem é esse menino?
Eu sou esse menino. Não, sou parte desse menino, a parte que se assemelha à toda miséria dele.
É ela, é a miséria que incomoda. Na verdade é esta que desejo extirpar, alguém por favor me dê aí uma faca, uma broca, um bisturi? Façam alguma coisa, mas arranquem essa miséria de mim.
Nunca senti fome. Dizem que a fome é uma miséria mais digna, no mínimo mais do que a que sinto, adornada com calda de caramelo para adoçar.
Alguém faça o favor, tire da minha frente esse pequeno Rimbaud.
Menino, eu conheço o seu jogo: a sua miséria contra a minha. Duelemos. Qual de nós sente mais fome?
O incômodo já começa a me queimar o estômago. Veja, menino, minhas vísceras também sentem a miséria, meu corpo também dói, não pela falta, mas pelo excesso.
Que paradoxo, hein, menino, sentirmos dores nas vísceras por motivos tão distantes e tão próximos...
Qual seu nome? Por certo, chama-se Edgard ou Arthur, William ou Charles talvez? Quem sabe Marius, então? Não me responda! Sei bem que nas ruas se economiza nome.
O que sabe de economia você, menino? Tem razão, nada mais autêntico que uma barriga faminta para entender de economia. Uma oportunidade e você daria um bom economista, talvez até um Nobel.
O que quer agora? Um trocado pelo seu número?! Seria injusto quando seus trinta e cinco segundos de malabarismos descortinaram toda a miséria que demorei trinta anos para perceber.
Nada posso lhe dar, pobre garoto. Estou também eu à margem. Esgueiro-me como você nas beiradas desse prato fundo e sujo a que chamam sociedade.
Agora tenho que ir, menino. Olhe, abra a mão, tome uma balinha que é só o que eu tenho a oferecer.
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Comentários
Belo texto, ótima reflexão. Um abraço.
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